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Camilo C. Branco em Leça
Camilo escreveu sobre Leça "Duas horas de leitura"
Um excerto do pequeno livro de Camilo, titulado "DUAS HORAS DE LEITURA", em que aquela grande figura do Romantismo português, com a sua fina sensibilidade e poder narrativo inigualável, fala de Leça e "ensina" "ONDE, QUANDO E COMO DEVE SER LIDO ESTE ESBOÇO DE ROMANCE":
A duzentos passos da igreja paroquial de Leça da Palmeira, está, no alto de uma colina, uma capelinha de invocação de Santa Ana. É uma ermida tosca, erguida ali por devoção de não sabemos quem, desamparada depois às injúrias do tempo.

Interiormente não sabemos o que é, nem o que foi. De fora tem a poesia, que pode dar-lhe a imaginação dos entes imaginativos, vulgarmente poetas, que são dessa moeda os mais liberais dissipadores.

Aquilo podia ser belo! Se lhe plantassem duas áleas de acácias ao longo dos trinta degraus, que facilitam o acesso à ermida, e a assombrassem em redor de álamos e amoreiras, a capelinha de Santa Ana, só em si, valeria Sintra, com todos os seus enfeites de arte, que lhe dão a cor falsa duma natureza pintada. Tem a ermida, encostado à parede, que olha para o nascente, um banco de pedra, seu ornamento único. É, sentado neste banco de pedra, que o leitor deve ler estes capítulos.

Já sabemos o onde; vai agora saber-se o quando. Seja por uma dessas encantadoras tardes de Portugal, em Agosto, no Agosto de Leça da Palmeira, onde é prodigiosa a liberalidade do céu, da terra e do mar, ali juntos em competência de dádivas.

Quando o sol, oscilando no ocidente, faz cintilar as águas em escamas de oiro, a populosa Leça está incendida nos revérberos escarlates dos seus vidros. O horizonte de terra mais apartado são cordilheiras agras, cuja cor de cinza faz lembrar a névoa de fumo, que os vulcões estendem sobre as montanhas próximas.

Cá, para este horizonte de mar, tanta luz, o lampejo trémulo do facho eterno, que a mão de Deus voltou para outros povos; além, o escurecer, a noite melancólica, a amiga cara dos desgraçados, que vem a chorar os seus orvalhos sobre as urnas de flores que o sol abrira. O espectáculo então é magnífico: é a riqueza que o Senhor deixou aos que o procuram. A esquerda tendes duas aldeias de aspecto pobre. As paredes das casas são, na maior parte, nuas de vidro e cal. Nos prados que as rodeiam, pasta o boi, o animal mais generoso, o mais prestante, o mais humilde escravo de outro animal, o mais escravo e ingrato, que é o homem.

Começa de ouvir-se a voz do pegureiro, falando à rês, que desce o recosto dos matagais, porque da cumeada do casal sobe a coluna de fumo, que o lavrador fatigado saúda de longe, e vem buscando. É ela a núncia de frugal repasto, o pão e o caldo, que lauto manjar é, se o seguem horas de sono tranquilo. Uma das duas aldeias chama-se a Conceição . Aquela casa luxuosa, pintada de amarelo, refrangindo resplendores nas suas vidraças de lavores caprichosos, é o palacete dum homem extravagantemente espiritualista de todos os séculos. Pois aquele palacete, há vinte e cinco anos, era um convento de frades mendicantes. Não me percam da vista aquele convento, ainda que embelezada lhes fuja a para o mais pitoresco retalho da terra, que os meus olhos viram.

Lá está Matosinhos defronte, com o seu majestoso templo. Que sombria severidade derrama a pequena cruz alçada entre duas torres alterosas! Se vedes um palácio, vasto morro de pedra, arrogante com o seu brasão, soberbo dos seus pórticos de mármore, não sentis o deslumbramento entusiasta, ou a concentração religiosa, que vos inspira uma simples ermida, coroada por uma cruz de grosseira pedra? Nos arredores da igreja de Matosinhos, onde tão repetidas lágrimas de piedoso reconhecimento vão chorar as mães que pediram ao Senhor a vida dos filhos, e os homens de mar, que fugiram com as asas da fé à garganta da morte aberta na tormenta, aí nesses arredores, onde a seiva duma natureza espontânea rebenta em espadanas de água e verdes espessuras, algumas capelinhas alvejam por entre a ramagem; e, a estas horas que ledes, se ledes ao pôr-do-sol, em tarde de Agosto, parecem-vos outros tantos tabernáculos abertos para solenizarem o trespasse da luz diurna para o clarão misterioso dos milhares de alâmpadas celestes. Não quero chamar-vos a atenção para a celebrada ponte, onde se ajunta um braço de mar, filho das ondas impetuosas, com o manso arroio do Leça, que lhe entra no seio, sereno a límpido como...consentis-me uma metáfora audaciosa? Como o homem de santa vida e coração sem espinhos, no seio tenebroso da sepultura."

In A Voz de Leça
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Ultima actualização a 2 de Setembro de 2008
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