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Naufrágio do "Veronése"
Estávamos em Janeiro de 1913, no dia 16, um dia de Inverno rigoroso, e o 'Veronese' lutava contra as ondas na costa de Matosinhos. A forte agitação do mar e a força do vento empurravam o navio contra os penhascos da Praia da Boa Nova.
Em terra iniciavam-se esforços para tentar salvar os passageiros e uma multidão curiosa e aterrada pela antevisão da tragédia ia-se acumulando na praia.
Pertencente à companhia Lampord Holt Line, representada em Portugal pela firma Garland Laidiey, Lda., o 'Veronese' vinha de Liverpool, tinha feito escala em Vigo, onde embarcaram 100 passageiros, espanhóis, ingleses e alemães e ainda quatro portugueses. Quase todos eles tinham como destino portos do continente americano, nomeadamente do Brasil, Argentina e Venezuela. Ao tentar entrar em Leixões, o mau tempo e, sobretudo, a má iluminação daquele pedaço de costa portuguesa, conhecida no meio marítimo como a "dark land", levaram o barco contra os rochedos.
De imediato, os Bombeiros Voluntários de Leça da Palmeira, dirigidos na época pelo oficial do exército Laura Moreira, deram início aos procedimentos necessários para tentar o salvamento. Prepararam tudo para a montagem de um cabo vaivém, destinado a retirar os náufragos do navio, que começava a afundar, devido ao rombo no porão da proa, provocado pelo embate contra os rochedos.
Era ainda noite cerrada, quando se deu o acidente, precisamente, às 6 horas e 20 minutos, e o dia passava sem que se vislumbrasse uma melhoria do tempo.
Entretanto, à corporação de Leça juntaram-se as do Porto, da Póvoa de Varzim e de Viana do Castelo. As tentativas para lançar os cabos para o navio naufragado eram prejudicadas pela chuva e vento intensos e, dos 58 foguetões lançados, apenas cinco atingiram o seu destino. A demora começava a mexer com os nervos de todos e os mais pessimistas adivinhavam desgraças.
O capitão do Porto de Leixões, Carlos Frederico Braga, acompanhava os trabalhos com preocupação e alguns corajosos ofereciam-se para ir levar a bordo o cabo salvador. Até que, lançados os cabos e montado o sistema de vaivém, inicia-se o salvamento. Eram então cinco horas da tarde e
na praia a multidão atingia já as cerca de 15 mil pessoas. A primeira pessoa a sair do barco foi a jovem Doroteia Olkat, de 15 anos, que embarcara em Liverpool, com destino a Buenos Aires.
Conforme iam chegando a terra, os náufragos eram levados para a capelinha da Boa Nova que tinha sido transformada em posto da Cruz Vermelha Portuguesa. O posto da Guarda-fiscal servia, também, de abrigo às vítimas do naufrágio que, lenta mas de forma segura, iam sendo retiradas do Veronése. Eram 10 horas da manhã do dia 17 e apenas 37 pessoas se encontravam a salvo.
 
Na praia estava montado um autêntico acampamento, iluminado por potentes gasómetros fornecidos pela Junta Autónoma da cidade, onde nem sequer faltava um posto de telegrafia óptica que comunicava directamente com um outro instalado na Serra do Pilar.
O serviço de salvamento processava-se com morosidade, a agitação do mar fazia com que uma
boa parte dos náufragos tivesse que fazer o percurso com parte do corpo imersa em água.
Entretanto, de 17 para 18, o tempo começa a modificar e o mar acalma. Nessa altura, um grupo de marítimos da Póvoa pede autorização para tentar uma aproximação ao navio naufragado com o salva-vidas "Cego do Maio".
A este barco junta-se o "Rio Douro" e ambos chegam a Leça na madrugada do dia 18. A acostagem ao 'Veronése' foi impossível e a solução passou pelo lançamento de cabos, aos quais os passageiros se amarravam, atirando-se depois ao mar, de onde eram recolhidos para os salva-vidas. Desta forma, foi possível, pelas quatro horas da tarde, recolher todos os náufragos do paquete. Mesmo assim, algumas vítimas, devido a acidentes quase inevitáveis numa operação desta envergadura, já que no total, foram salvam 89 pessoas pelos cabos e 102 pelos barcos salva-vidas.

In "Jornal da Região - Matosinhos"
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Ultima actualização a 2 de Setembro de 2008
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