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Guardião da Memória
Leceira
Jorge
Armando Oliveira dos Santos Bento, nasceu nesta sua amada
Leça da Palmeira, na antiga Rua 5 de Outubro em 11
de Setembro de 1915, e onde podemos considerar que viveu
toda a sua vida. Casou com D. Palmira, em Setembro de 1941
e tiveram quatro filhos: a Cecília, o Miguel, o Manuel
e o António, vivendo na Rua Direita numa casa que,
como dizia “era a única da rua que tinha apenas
uma porta e uma janela”.
Esta
casinha corresponde à descrição que
Antero de Figueiredo faz das casas de Leça da Palmeira
no seu livro “Jornadas em Portugal” e onde diz
“Esta gente prática e elegante, foi-se às
velhas casas, baixas, de miúdas janelas e caiaram-nas
muito bem caiadas, como a Ripolin; pintaram-lhes a branco
os caixilhos, de vermelho os beirais puseram “brises-bises”
de rendas nas vidraças, cortinados de cambraia com
folhos, de lavar por detrás das sacadas, e persianas
verdes nas janelas”.
Fez
os primeiros estudos na desaparecida escola Pinto de Araújo
e após ter aperfeiçoado o Português
e o Francês no colégio da D. Cassildinha, Jorge
Bento cedo começou uma intensa vida intelectual sempre
com a sua Leça no coração.
Foi funcionário da Agência de Navegação
e Comércio, durante quarenta e três anos, até
por opção ter imigrado para Moçambique
em 1973, onde trabalhou, em Nacala, num despachante até
1976. Foi com a divulgação de múltiplos
aspectos culturais que preencheu a sua vida dando a conhecer
através de uma imensa e rica bibliografia, tudo quanto
é possível saber do acervo histórico,
etnológico e musicólogo de Leça da
Palmeira e de Matosinhos.
Em
1931, com a ajuda de familiares e amigos funda o grupo coral
polifónico Capela de S. Miguel, com o qual percorre
todo o país; sendo deveras interessante e edificante
a origem deste agrupamento coral.
Jorge Bento e António Jorge Bento, eram dois rapazes
que tinham o pai para o Brasil e, no intervalo dos estudos,
gostavam de auxiliar a mãe nos trabalhos de casa.
Os dois irmãos ajudavam à missa e a outras
cerimónias, na Igreja Paroquial; e, como tinham excelente
memória auditiva, chegados a casa e entregues ao
trabalho, repetiam os cânticos ouvidos no templo,
encarregando-se cada qual da sua parte, quando o trecho
era a duas vozes. A mãe rejubilava com tamanhas qualidades
dos filhos! O avô paterno, que ajudara a reorganizar
a Confraria dos Passos do Senhor, esteve (em 1933) retido
em casa com prolongada e grave enfermidade, e manifestou
aos netos o desejo de ver desfilar, junto da sua porta,
a sua querida Procissão dos Passos, que naquele ano
não sairia por dificuldades financeiras.
Conhecedores
deste desejo, Jorge Bento e António foram pedir a
um tio, juiz da dita confraria, naquele ano, para que fizesse
sair a procissão, pois eles com mais primos e alguns
amigos, cantariam o “Miserere” e os cânticos
próprios do momento, evitando assim essa despesa.
Resolvidas algumas outras dificuldades naturais, assim se
fez. E, no sábado, 1 de Abril de 1933, aquele punhado
de rapazes cantava e encantava na Igreja Paroquial, nos
exercícios preparatórios para a procissão
do dia seguinte. Justifica-se desta forma a alegria e satisfação
com que Jorge Bento dizia que o seu grupo coral nasceu das
Chagas de Jesus e das Lágrimas de Maria. Porém,
este agrupamento fora inicialmente de carácter ocasional,
pois satisfeito o desejo do avô deveria normalmente
dispersar. Mas não! Nessa altura aparece o sacerdote,
P.de Manuel Francisco Grilo, que insiste com Jorge Bento
para que o grupo continue e, com os seus primos cantores,
restaure a Confraria de S. Miguel, padroeiro da freguesia
e se realize a sua festa, que tinha desaparecido havia cerca
de um século. Jorge Bento deixou-se persuadir e meteu
mãos à obra, surgindo a confraria e com ela
a festa. É pois, natural que um grupo tão
eminentemente ligado a esses factos viesse a chamar-se “Capela
de S. Miguel”.
Jorge
Bento era olhado pelos seus cantores como um pai ou um irmão
mais velho, pois não sendo fácil concitar
em seu favor a simpatia, a confiança e a aquiescência
de 25 a 30 homens e rapazes, recolhia a sua confiança
e respeito, tanto mais que os cantores não recebiam
qualquer gratificação pecuniária. Dirigiu
também o Coro de Santo António na Capela de
Ruas. E, até em Nacala fundou um grupo coral que
com grande mágoa abandonou quando resolveu regressar
à metrópole. Por curiosidade juntamos neste
trabalho uma relação dos elementos que fizeram
parte da “Capela de São Miguel de Leça
da Palmeira” durante a sua existência.
Em
1935 é convidado para ensaiar o actual Rancho Típico
da Amorosa, função que mantém até
1940.
Nas várias composições musicais não
podemos deixar de referir o Hino do Leça F.C..
Além do canto, Jorge Bento foi uma espécie
de assessor do pároco, de uma dedicação
enorme à paróquia, onde foi um exímio
colaborador nas obras da igreja, nomeadamente das casas
dos pobres de Gonçalves e de Rodão, do Salão
Paroquial e nas iniciativas pastorais. Foi o grande “empresário”
do cinema paroquial sendo o responsável pela primeira
sessão de cinema na localidade gerindo durante muitos
anos a respectiva sala.
Foi
fundador e redactor de “A Voz de Leça”
e até o autor do título que encabeça
o jornal. Deixou também o cunho do seu talento artístico
na cenografia das memoráveis noites do Clube de Leça,
no Teatro Constantino Nery, na Salão Paroquial de
Leça da Palmeira e na Associação Recreativa
Aurora da Liberdade. Legou à Paróquia uma
obra riquíssima em cenários de teatro, os
quais infelizmente se deterioraram no sotão do Salão
Paroquial.
Ainda na área da pintura devemos referir uma outra
faceta do seu génio multifacetado referindo a sua
paixão pela iluminura que pode ser apreciada no Livro
de Ouro da Sociedade Humanitária de Matosinhos –
Leça e no Livro de Honra do Lions Clube de Leça
da Palmeira, e simultaneamente pintou vários quadros
a guache ou a nanquim, bem como muitas outras iluminuras.
Também
em Moçambique no campo da pintura deixou a sua marca
num quadro representando Samora Machel com as dimensões
de 7,5 x 5,5 metros, para as comemorações
da independência. Escreveu vários artigos na
“A Voz de Leça” e foi um artigo publicado
neste jornal relativo à imagem com cinco séculos
que está na Igreja Matriz, como sendo a Senhora do
Leite, quando ele tinha a certeza que a mesma se tratava
de Nossa Senhora da Conceição, que o leva
a investigar em documentos e a reunir os elementos necessários
para provar a sua tese. Nasceu assim o primeiro livro, “História
da Imagem da Senhora da Conceição” (1983)
e nunca mais parou.
Os seus livros são de imprescindível consulta
para o conhecimento de Leça da Palmeira de hoje e
de ontem, constituindo sem qualquer exagero a “Bíblia
de Leça da Palmeira”.
De
facto desde a “História da Imagem da Senhora
da Conceição” em 1983 até ao
“Chilro Após a Muda” em 2004 foram vinte
e nove livros escritos num estilo fluente de características
singulares e muito próprias, no bom e já saudoso
português de outro tempo, onde encontrámos
uma enorme diversidade de temas, abordando factos e figuras
ilustres que fizeram parte da história da nossa terra,
muitas delas felizmente ainda entre nós. Os seus
livros marcam a historiografia matosinhense, assumindo-se
como o mais extenso, profundo e acabado estudo monográfico
sobre uma freguesia do concelho. Apetece-nos perguntar,
que terra de Portugal tem ou teve um filho que tantos livros
escreveu sobre ela? O nome de Jorge Bento alcançou
já uma notoriedade neste campo que permite torná-lo
numa referência obrigatória, como o de um Guilherme
Felgueiras ou a de um Joaquim Neves dos Santos. E porque
na minha opinião a qualidade de vida de uma população
passa necessariamente pela sua identificação
com uma memória e património colectivos, bem
assim como pela sua divulgação e salvaguarda,
actualmente a promoção da qualidade de vida
em Leça da Palmeira passa forçosamente por
Jorge Bento. Ele que era a modéstia em pessoa com
toda a sua obra nas mais variadas vertentes revelou um talento
nato, e foi-lhe assim retirado o anonimato, pois os seus
livros, alguns com edições já esgotadas,
chegaram a vários pontos do País, como por
exemplo o “Cancioneiro de Leça” (1985)
muito procurado pelos estudiosos.
Biografias como as dos livros “O mais Sublime Leceiro”
(1994) dedicado ao Dr. José Domingues de Oliveira
ou “Ecos Duma Vida” (1997) sobre o P.dre Alcino
Vieira marcam a sua escrita, não esquecendo todos
os outros registos de usos, costumes e tradições,
que relembramos ao percorrer a sua obra são de um
valor incalculável e onde ficam referenciadas as
histórias como a da Igreja de Leça, as suas
Capelas, a construção do Salão Paroquial,
o Convento da Quinta da Conceição e muitas
outras referências.
Em
7 de Novembro de 1992 foi galardoado com a Medalha de Prata
de Cidadão Honorário da freguesia de Leça
da Palmeira e com a Medalha de Ouro de Mérito dos
Bombeiros Voluntários de Matosinhos – Leça;
e a 6 de Dezembro de 1992 foi-lhe concedida a Medalha de
Honra do Forum Matosinhense. Este homem de rara sensibilidade
artística, profundo investigador, inexcedível
na delicadeza de trato, granjeou a estima de todos quantos,
com ele, alguma vez tiveram o privilégio de privar;
porém, a morte veio interromper o “Índice
Remissivo de Toda a Obra”, que estava a elaborar com
o cuidado que lhe era peculiar.
Jorge
Bento, sendo uma alma grande e bela, sabia ser humilde como
o são todos os que têm e praticam verdadeiramente
os valores humanos, intelectuais e morais, e embora não
fosse subestimado, não terá tido talvez o
reconhecimento que merecia; pois não era visto como
um escritor, um músico ou um pintor. Muitos eram
os que acreditavam conhecerem-no bem, mas nem todos o leram
ou viram as suas intervenções no domínio
das Artes Plásticas. Jorge Bento, livre da influência
cultural dos modernismos, acenava-nos com a alternativa
da sua personalidade, contrapondo a essas mesmas influências
a autenticidade da tradição colocando-a útil
e sabiamente ao serviço das suas gentes, ou seja
da sua querida Leça da Palmeira.
O
longo percurso da sua vida, 89 anos, revelou uma evolução
que diferencia os mais dotados. Com a sua capacidade natural
Jorge Bento tornou a vida num espectáculo de valores
da arte: a Literatura, a Música e a Pintura, conferindo
a todas elas uma dedicação por igual e uma
entrega tão autentica que não incomoda dizer
que provoca em alguns uma sensação de desconforto
e em muitos até uma ponta de inveja, pela diversidade
dos seus talentos.A sua entrega à cultura tem o efeito
ilusionstico de um cenário.
Em Jorge Bento o que se situava ao fundo do “palco
da vida” era uma aparente ilusão. A sua modéstia
ocultava o verdadeiro valor que em si encerrava tornando-o
pólo gerador de uma criatividade que só nos
cabe agradecer.
Foi assim, com grande tristeza, que no dia 18 de Outubro
de 2004 recebemos a noticia que JORGE BENTO havia sido chamado
por Deus. Tinha falecido o “Guardião da Memória
Leceira”. Por tudo quanto aqui fica dito esperamos
que esteja no lugar a que tem direito, junto ao Senhor.
Engº
Fernando Rocha dos Santos – A Voz de Leça –
N.8 – Outubro de 2006
BIBLIOGRAFIA
Bento, Jorge (1983). História da Imagem da Senhora
da Conceição a (2004) Chilro Após a
Muda (29 volumes) Leça da Palmeira - Edições
do Autor; Coutinho, A.P.; Coutinho, J.P. (2000) Matosinhos
– Monografia do Concelho, 9.Matosinhos: C.M. Matosinhos;
Coutinho, J.P. (1994). O livro de Jorge, Jornal de Matosinhos,
n.º 720, Matosinhos; Gomes, A.J. /1992). Jorge Bento:
Com Leça no coração, Jornal de Matosinhos,
n.º 625, Matosinhos; Pacheco, F. (2004). Recordando
Jorge Bento, A Voz de Leça, n.º 9 (NOV2004),
Leça da Palmeira; Rodrigues, M. (1994). Jorge Bento:
A boa nova de Leça da Palmeira, Matosinhos Hoje,
n.º 21, Matosinhos; Santos, C.P. (2000). A história
de Leça quase só por amor, O Comércio
do Porto (suplemento 14.05.2000), Porto; Vieira, A. et al
(1991). Homenagem a Jorge Bento. Leça da Palmeira:
Junta de Freguesia de Leça da Palmeira
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