É treinador, administrador e até já ajudou a cobrar quotas. Dizem que sem ele o clube não era o mesmo. Milic Jovanovic, sérvio a viver há 15 anos em Portugal, é o homem dos sete ofícios do F. C. Leça, da 3.ª divisão.
Abandonou, em plena guerra, a então Jugoslávia, em 1993, para defender a baliza do Torreense. Ingressou, depois, no Nacional da Madeira, onde esteve dois anos, antes de se assentar bagagens em Leça da Palmeira. Foi aí que chegou à ribalta do futebol português. Certamente lembrar-se-ão do gigante sérvio de 1,94 metros que discutiu a titularidade da baliza do F. C. Leça com Vladan Stojkovic, irmão e empresário do ainda guarda-redes do Sporting, quando o clube brilhava na Liga principal, nos finais da década de 90.
No início do novo milénio, Jovanovic arrumou as luvas, mas continuou a dedicar-se ao "seu" Leça, onde ocupou os mais variados cargos, no relvado, mas também fora dele. "Estou preparado para qualquer lugar. Sou funcionário do clube e não posso recusar nenhuma proposta", explica.
Entretanto, chegou à administração do clube, onde é responsável pela ligação entre a secretaria e os serviços externos. Trata das inscrições dos jogadores na Associação de Futebol do Porto, na segurança social, da regularização do clube nas finanças. No ano passado, até chegou a ajudar a cobrar as quotas. Tudo em nome do amor ao Leça.
"Desta vez, a direcção convidou-me para liderar a equipa juntamente com o Pedro Mesquita [também antigo jogador do clube], assim como outras direcções me pediram noutras alturas para desempenhar outras funções", afirma Jovanovic, que assume, este ano, pela primeira vez na carreira, o cargo de técnico principal.
Não diz se a "promoção" foi acompanhada de um aumento do ordenado - afinal, o segredo é a alma do negócio. Jovanovic prefere falar da bola. O objectivo para este ano é parar, de vez, os trambolhões que a equipa leceira tem dado nos últimos anos. Depois da descida à 3.ª divisão, a meta é fazer este ano "uma época tranquila". "Queremos ficar entre os seis primeiros lugares", aponta.
O regresso aos palcos maiores do futebol português está, para já, fora do horizonte leceiro. "Primeiro precisamos de conseguir estabilidade para depois, quem sabe, pensar noutras coisas". Palavra de treinador... e de administrador.
In Jornal de Notícias - 06 de Agosto de 2008