Amor em Decomposição

Amor em Decomposição - Artigo de Opinião - Miguel Correia
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Miguel Correia

O choro daquela criança não era um protesto, era um sintoma; um som agudo que rasgava a gare e se perdia no eco das estruturas metálicas, como se tentasse preencher o vazio deixado pelas palavras que já não serviam para comunicar. Ali, entre o cheiro a ferro e o vento cortante da plataforma, o espectáculo era obsceno na sua honestidade.

Um casal, outrora unido por promessas de eternidade e o brilho cúmplice de quem partilha o mesmo lençol, digladiava-se agora com a fúria de dois náufragos que disputam o último resto de tábua. Ele gritava para que ela fosse, para que o comboio a levasse para longe da sua vista e do seu fracasso; ela berrava para que ele ficasse, não por amor, mas para que a sua presença servisse de testemunha e carrasco do seu próprio martírio.

O ódio que ali desfilava não era o oposto do amor, era o seu cadáver em decomposição, uma forma de intimidade tão perversa que só quem muito se amou consegue destilar. Onde antes houve o sussurro da paixão, restava agora o ruído branco de uma guerra de trincheiras onde a única munição era a mágoa acumulada em anos de silêncios engolidos e jantares de domingo passados a olhar para o televisor…


É a erosão silenciosa do quotidiano que mata o que o altar abençoou. O casamento, no seu desgaste mais cruel, transforma-se numa contabilidade de faltas, onde o “nós” se desintegra num “tu” e num “eu” em permanente estado de sítio.

A paixão que outrora era o combustível daquela viagem tornou-se nas cinzas que agora sujam as mãos de quem tenta salvar as aparências. Naquela estação, o comboio que se aproximava não trazia apenas uma locomotiva; trazia o símbolo da urgência de fuga. Como é que dois seres que um dia se olharam com a convicção de terem encontrado o porto seguro chegam ao ponto de usar o grito como única ponte possível?

O tempo, esse escultor impiedoso, tinha transformado o desejo em dever, e o dever em asco. A criança continuava a chorar, talvez percebendo, na sua sabedoria instintiva, que o amor não morre de um golpe só; morre de exaustão, asfixiado pelo peso de tudo o que ficou por dizer e pela terrível descoberta de que, por vezes, a maior solidão do mundo é aquela que se sente ao lado de alguém que já foi a nossa casa, mas que agora é apenas um estranho com quem partilhamos a conta da luz e o ódio de um destino comum.


Por: Miguel Correia

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