Lenda do “Sol na Caixa” e Procissão dos Passos em Leça da Palmeira

Lenda do “Sol na Caixa” e Procissão dos Passos em Leça da Palmeira

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Da prática de colocar as arcas de pinho a arejar em Leça da Palmeira, ou como antigamente era conhecida, São Miguel da Palmeira, nasceu a lenda do “Sol na caixa”. Lendas são contos tradicionais, com origem na imaginação dos povos através dos tempos, que muitas vezes não se conjugam com a História e, outras vezes, acabam por completá-la.

Corre entre o povo de Leça da Palmeira a versão de que as leceiras levavam a sua irritada ingenuidade até ao ponto de suporem ter o poder sobrenatural de guardar o sol durante o ano, numa caixa de pinho, para que no dia da tradicional procissão do Senhor dos Passos, ele inundasse de luz, de calor e de majestade, as ruas atapetadas de verdura, por onde desfilava o préstito religioso.

Assim sendo, em Leça da Palmeira era muito usual, em dias de sol, pelo Verão, manterem-se abertas, durante algumas horas do dia as “tais arcas ou caixas de pinho velho”, para os panos arejar. Nessa altura, se a madeira das arcas necessitasse, arrastavam-nas para o quintal ou para a porta da rua, dependendo da situação, de maneira a apanhar bem o sol para assoalhar e, depois de bem secas, voltar a utilizar. Desta forma, surgiu por parte das matosinhenses a crença de que as raparigas de Leça guardavam o “sol na caixa”, para o domingo da sua Procissão dos Passos. Para além disso, zombavam das leceiras por essa exibição. No entanto, estas não se deixavam vencer.

Nas vésperas da procissão dos Passos, na freguesia, (quinto domingo da Quaresma) se o tempo se mostrasse mau, chegavam de imediato as dores de barriga às leceiras, pois se chovesse naquele dia tinham de sofrer e ouvir as matosinhenses.

No dia, se o tempo continuasse cinzento, abriam logo de manhã as “caixas de pinho” para que o sol saísse, raiasse de tarde, e assim o préstito pudesse desfilar. As leceiras sabiam que a lenda não tinha qualquer influência na meteorologia e aguentavam-se firmes, mas de coração apertado.

A verdade é que foram raras as vezes que a procissão teve que sair no domingo seguinte ou deixou de sair por causa do tempo. Quer a procissão dos passos saísse ou não, no dia seguinte no rio das lavadeiras, havia um espectáculo sem par, pois as matosinhenses haviam de provocar sempre as leceiras, mas a certo momento pegavam-se umas com as outras, chegando mesmo a vias de facto.

Júlia Orquídea


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