Memórias de Estudante

secretaria de escola antiga

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Joaquim MonteiroPara nós leceiros  setembro é um mês especial. Desde logo pelas festas de S. Miguel, o nosso padroeiro, que decorrerão no último fim de semana deste mês. Mas também porque agora, desde há uns anos, representa o regresso às aulas.

Parafraseando um célebre anúncio de televisão: «No meu tempo…» as aulas começavam apenas em outubro e as aulas eram só de manhã ou de tarde. E chegava perfeitamente! Depois acabavam em junho, o que dava três meses inteirinhos de férias. E era tão bom!

Agora tudo mudou.

As famílias já não têm as mães em casa para «criar» os filhos, pois ambos os cônjuges têm de trabalhar para sustentar a família. Valha-nos, ao menos, os avós. Abençoados avós.

Assim, cada vez o ano escolar começa mais cedo e acaba mais tarde. Este ano já vai mesmo até ao fim de junho.

Inventou-se a escola a tempo inteiro, que obriga crianças de 6 anos a estar todo o dia na escola, das 9 às 17, ou seja, um horário de trabalho. E para muitos ainda é pior, já que a necessidade de muitas das famílias levam-nas a deixar as crianças às 8 e a busca-las às 19.

Que saudades do tempo em que as crianças podiam ser crianças, em que havia tempo para se brincar, em que não existiam brinquedos complicados, mas nós fazíamos os nossos próprios brinquedos a partir do nada. Uma tampa de garrafa (cabacinhos ou carica, como dizíamos) servia para fazermos corridas de carros em pistas riscadas na terra; as velhas meias de vidro das nossas mães, devidamente enroladas davam excelentes bolas para o «mata» ou mesmo para um joguinho de futebol; uma caixa de fruta era um carro, bastando colocar 4 rolamentos e faziam-se espetaculares corridas.

Também a televisão nos dava tempo para brincar. Havia apenas 2 canais e a emissão não era contínua (24 horas). Os programas infantis tinham hora marcada e duravam até 30 minutos.

Hoje as nossas crianças têm as melhores tecnologias para brincar, têm 160 canais de TV para ver, mas não têm tempo para socializar com os amigos nem para brincar com os pais.

O que está muito melhor são as condições físicas das escolas, quer em termos de construção, quer ao nível dos equipamentos. Hoje as salas de aula têm controlo de temperatura, quadros interativos, projetores, computadores. Os professores têm uma panóplia de instrumentos e meios que podem utilizar de forma a tornar o ensino mais interessante e atrativo.

Contudo, não consigo deixar de sentir uma certa nostalgia quando vejo as fotos da minha escola «no meu tempo». Neste caso, a Escola da Amorosa. Que saudades do velhinho quadro preto de lousa, onde se escrevia a giz; das carteiras de madeira, individuais, com o banco incluído, cujo tampo se levantava de forma a permitir guardar o material escolar e que tinha uma ranhura própria para colocarmos os lápis e as canetas de forma a que não caíssem e outra para colocar o tinteiro. Sim, ainda «sou do tempo» em que aprendíamos a usar canetas de bico!

Os professores praticamente só tinham os manuais e alguns mapas. O resto era a sua competência, a sua arte de ensinar. Aprendíamos um pouco de tudo. Há quem diga que era um ensino baseado apenas na memória, no decorar. Mas tenho 50 anos, quase 51, e continua a saber o nome e a localização da maioria dos grandes rios e serras portuguesas, ainda sei quais são as províncias de Portugal e as capitais de distrito. Até ainda me lembro de algumas das estações (e apeadeiros) da principal linha férrea portuguesa. Ainda sei fazer «contas de cabeça», sei a tabuada, sei fazer reduções, sei as unidades de peso e medida.

Claro que hoje há a internet e não é preciso saber quase nada disto. Tudo está à distância de um clique. Mas como ser racional que sou dá-me gozo e satisfação saber que ainda sei.

Até ainda sei o nome da minha professora primária e dá-me um grande prazer continuar a vê-la todas as semanas na igreja de Leça da Palmeira.

Até à próxima semana.

Saudações leceiras

Joaquim Monteiro


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