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Viver em Portugal tornou-se um exercício de apneia financeira, onde o cidadão comum, transformado em náufrago de terra firme, flutua num mar de montras que pode observar, mas raramente tocar.
Há uma melancolia muito própria nesta “vadiagem de corredor”, em que o rendimento minguado obriga a uma triagem impiedosa: o essencial ganha o peso de um luxo e o supérfluo é uma miragem que mal cabe no vocabulário.
O supermercado, antigo templo do consumo, é hoje o cenário de uma luta de classes silenciosa, travada entre o rótulo do preço e a dignidade do carrinho. O português médio desenvolveu uma visão periférica apurada para o rectângulo amarelo das promoções, ignorando as prateleiras à altura dos olhos, onde repousam os produtos que o seu salário de sobrevivência já deu como perdidos.
É uma existência medida em gramas e cêntimos, onde a liberdade de escolha foi substituída pela ditadura do talão, e onde cada ida às compras se assemelha a uma expedição de salvamento de um orçamento que já naufragou logo na primeira semana do mês…
Neste ecossistema de escassez, floresce com um vigor renovado a velha arte da trafulhice comercial, agora disfarçada de “optimização de custos” ou “marketing de oportunidade”. É aqui que entra a engenharia do logro: as embalagens que mantêm o volume mas emagrecem o conteúdo, a inflação que se esconde atrás de nomes gourmet e, sobretudo, a criatividade maliciosa de quem vende.
Assistimos a um jogo de sombras onde o consumidor, já fragilizado pela falta de liquidez, é bombardeado com falsas reduções e estratégias que visam espremer o pouco que resta na carteira nacional.
O comerciante, num mimetismo predatório, ajusta as regras para que o lucro sobreviva à custa da fome de quem compra, transformando o acto básico de adquirir sustento num campo de minas ético.
Entre o preço que sobe sem aviso e a qualidade que desce sem desculpas, o náufrago tuga vê-se cercado por tubarões de gravata que, sob o pretexto da crise, elevaram o oportunismo ao estatuto de modelo de negócio, provando que, em Portugal, quando o dinheiro escasseia, a primeira coisa a ir ao fundo é, invariavelmente, a honestidade do mercado.
Por: Miguel Correia
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