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A publicidade sempre viveu de promessas ambiciosas, mas poucas áreas revelam tamanho desfasamento entre expectativa e realidade como o vestuário.
O homem, criatura simples e de esperança resiliente, vê um anúncio de roupa interior ou umas calças justas e conclui, com a ingenuidade própria de quem ainda acredita em campanhas honestas, que determinado tecido opera milagres estéticos. Surge a modelo luminosa, geometricamente irrepreensível, envolta numa peça de algodão elástico que parece ter sido desenhada por engenheiros aeroespaciais. O olhar masculino, pouco treinado nas artes da manipulação visual, presume que bastará a aquisição do artigo para que a vida quotidiana passe a oferecer semelhantes panoramas.
Depois chega a realidade, esse departamento sempre mal gerido. A encomenda abre-se, o entusiasmo instala-se e, quando finalmente a peça é observada em contexto humano normal, percebe-se que faltavam ao processo pequenos detalhes técnicos: iluminação de estúdio, filtros digitais, maquilhagem profissional, genética rara e, em muitos casos, uma equipa inteira dedicada a puxar, prender e esconder o que a natureza distribuiu com excesso de generosidade.
Particular menção merecem certas calças justas, cuja engenharia desafia a física newtoniana. Há estruturas têxteis que comprimem, elevam, redistribuem e silenciam volumes com a eficácia de uma operação militar. O que minutos antes era matéria abundante transforma-se subitamente em linha elegante, ancas harmoniosas e firmeza estatisticamente improvável. Não digo milagre, para não ofender a religião, mas andará perto.
O problema surge quando o observador, iludido por semelhante obra de contenção, imagina que a embalagem corresponde integralmente ao conteúdo. Descobre depois que muitos tecidos são menos roupa e mais argumento, menos moda e mais ficção científica. Reconheço, desde já, que o sexo feminino poderá apresentar queixas equivalentes sobre perfumes anunciados por homens esculturais, relógios usados por milionários imaginários ou champôs aplicados em cabelos irreais. Não duvido. Porém, como sou eu que escrevo a crónica, limito-me ao sofrimento que conheço. Cada cronista combate a indignação pessoal que lhe calhou, e o meu tem lycra, rendas e profundas desilusões e enganos.
Por: Miguel Correia
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