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Há uma sonoridade quase mística no diminutivo português, uma forma de reduzir o mundo para que ele não nos magoe tanto. Mas nada é tão revelador da nossa alma como o “saudinha” com que selamos a despedida, lançada entre o bater da porta do café e o rodar da chave na ignição.
É um bota-fora verbal, um amuleto lançado ao ar por quem sabe que, neste rectângulo à beira-mar, a saúde é um conceito teórico gerido por folhas de Excel e tempos de espera que fariam desesperar um monge budista. Desejamos “saudinha” com a mesma naturalidade com que o condenado pede uma última vontade, sabendo que, se o corpo ceder, a jornada começa numa triagem de Manchester onde o “verde” é a cor da esperança que morre sentada. É uma ironia deliciosa, tipicamente lusa: vivemos num país que se queixa, entre dentes e com razão, de que o sistema Público é um labirinto de corredores frios e macas estacionadas, mas não abdicamos de encomendar a alma do próximo ao bem-estar físico. No fundo, a “saudinha” não é apenas um desejo; é um seguro de responsabilidade civil entre conhecidos. “Desejei-te saúde, agora se o fígado te trair ou o joelho estalar, não digas que não te avisei”. É o ter de ser…
O paradoxo ganha contornos de comédia de costumes quando observamos que este desejo é partilhado, maioritariamente, por quem já traz a farmácia inteira no bolso do casaco. É o triunfo da cortesia sobre a eficácia do SNS.
O português médio olha para a lista de espera para uma cirurgia com o fatalismo de quem olha para a previsão do tempo, mas compensa a inércia do Estado com a abundância do voto pessoal. “Saudinha”, dizemos, enquanto o país tosse e a burocracia espirra. É o nosso “ámen” laico, a última linha de defesa contra o inevitável declínio da máquina. Talvez o façamos porque sabemos que, entre a marcação da consulta e a realização do exame, o que nos resta é mesmo a boa vontade de quem se cruzou connosco na rua. Se o médico não atende e a linha SNS24 dá sinal de ocupado, que nos valha a “saudinha” do vizinho, esse diagnóstico gratuito e imediato que, não curando a maleita, ao menos nos limpa a consciência antes de voltarmos ao nosso fado de esperar, esperar e, no fim, desejar tudo de bom a quem fica.
Por: Miguel Correia
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