Tribunal à Mesa do Vitorino

Contabilidade à Mesa
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Miguel Correia

A democracia portuguesa atingiu, finalmente, o seu estado de graça gastronómico. Num país onde as grandes decisões se tomam historicamente entre o café e o digestivo, o Tribunal Constitucional decidiu elevar o conceito, confiando a revisão das contas dos partidos a uma empresa com a frescura de um peixe acabado de pescar e a solidez de uma efémera.

Criada na véspera, como quem decide mudar de marca de tabaco, esta entidade não escolheu um centro empresarial de vidro e aço para sede, mas sim o aconchego do restaurante Vitorino, no Brejo da Moita. É uma bofetada de pragmatismo na face da burocracia europeia: enquanto se escrutinam os donativos obscuros e as facturas de campanha, pode-se perfeitamente pedir uma dose de entrecosto ou uns choquinhos fritos.

O rigor contabilístico ganha aqui uma nova dimensão sensorial, onde o cheiro a refogado ajuda a disfarçar o odor a esturro de certas contabilidades partidárias. É o “outsourcing” de proximidade, o triunfo do território sobre a transparência, onde a fiscalização das elites políticas se faz com o guardanapo de papel ao pescoço e a conta riscada a caneta no canto da toalha de papel…

Este novo conceito de negócio — o “Fiscal-Gastro-Hub” — é a solução que faltava para a crise de confiança nas instituições. Afinal, que melhor auditoria se pode fazer do que aquela que acontece entre duas garfadas de um arroz de feijão bem malandrinho?

No Brejo da Moita, a transparência não se mede em folhas de Excel, mas na claridade do azeite que tempera a salada. É um prodígio de eficiência: o Tribunal Constitucional delega o trabalho sujo e a empresa, ainda com o cheiro a cartório e a tinta fresca do registo, oferece o ambiente ideal para que as contas batam certo — se não baterem à primeira, pede-se outra rodada de imperiais e a coisa logo se ajusta.

Criticar o critério desta escolha é não entender a alma lusa; é ignorar que, em Portugal, a distância mais curta entre uma polémica financeira e a sua digestão passa sempre por uma mesa bem servida.

Enquanto o país discute a ética, no Vitorino discute-se se a carne está no ponto, provando que, para vigiar os guardiões da nossa política, não é preciso um exército de peritos, basta um bom garfo e a morada certa num lugar onde o GPS tem dificuldade em chegar, mas onde o poder se sente, literalmente, em casa.

Por: Miguel Correia


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