Auditoria à Fábrica de Gente

Auditoria à Fábrica de Pessoas
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Miguel Correia

Trazer uma nova alma ao mundo devia exigir, no mínimo, o mesmo rigor burocrático de um crédito à habitação.

Actualmente, qualquer cidadão desprovido de matéria cinzenta e com a inteligência de um molusco consegue obter o visto biológico para a paternidade, bastando cinco minutos de biologia básica e zero noção. Assistimos a esta nova estirpe de progenitores modernos que gerem a educação dos filhos como quem gere uma conta de Instagram, onde o rebento é um mero adereço estético para render gostos.

O colapso cívico atinge o auge quando estes exemplares de gritante incompetência empática, incapazes de manter um cacto vivo, decidem projectar as suas frustrações na infância alheia, alternando entre o desleixo e os maus-tratos disfarçados de “educação livre”. O país precisa urgentemente de aplicar um severo filtro bancário à reprodução: taxas de esforço mental, fiadores morais e um extracto de paciência carimbado pelas Finanças.

Se a máquina fiscal avançasse, uma auditoria à parentalidade moderna revelaria que metade destes encarregados de educação seria sumariamente chumbada na análise de risco. É de uma irresponsabilidade bíblica ver pais que olham para o carrinho de bebé com o mesmo desdém com que olham para as instruções do IKEA.

Deixam os miúdos a berrar em transe no supermercado enquanto discutem futilidades, alheados do civismo. Ignoram, soberbos, que estão a criar a próxima geração de autómatos desajustados. Se para comprar um carro nos exigem registo criminal, recibos de vencimento e fiadores, por que raio a fábrica de gente continua em regime de rebaldaria total? Implemente-se o “crédito à parentalidade” — com direito a auditorias e reprovação imediata ao primeiro sinal de má conduta cívica — antes que o país fique de vez entregue a esta proliferação de pais de trazer por casa e filhos criados por algoritmos.

Por: Miguel Correia

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