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Engenheiro de Leça da Palmeira percorreu 15.000 km através de 16 países, guiado pela fé, pela “Albarda” e pelo ritmo sereno de um caracol.
O Salão Paroquial de Leça da Palmeira recebeu, no sábado, dia 22, Alexandre Pascoal, ciclista amador e engenheiro eletrotécnico, para uma conversa sobre a viagem que marcou o último ano da sua vida: um périplo de bicicleta iniciado a 13 de janeiro de 2024, em Leça, com destino à China. A sessão integrou o programa comemorativo do 60.º aniversário da Associação de Acólitos de Leça da Palmeira e foi moderada por Alcino Glória, figura histórica e antigo presidente da Associação.
Com 53 anos, natural de Matosinhos e residente em Leça da Palmeira, Alexandre Pascoal descreveu a aventura que o levou a viajar durante 345 dias, percorrendo 15.000 quilómetros de bicicleta e outros 20.000 de comboio e avião, atravessando dois continentes e visitando 19 países.

Hospitalidade e humanidade pelo caminho
Ao longo do encontro, destacou a persistência, disciplina e fé que sustentaram a sua viagem solitária, que nunca sentiu verdadeiramente só. Pelo caminho encontrou hospitalidade em todas as geografias, mas o Irão ficou-lhe no coração. Subiu montanhas a quatro mil metros de altitude, pedalou sob neve e calor intenso e contemplou paisagens e silêncios “capazes de fazer acreditar no Céu”.
A maior adversidade surgiu já no final do trajeto: na Tailândia, a dois dias de chegar ao Laos, foi atropelado e sofreu uma fratura na clavícula. Ainda percorreu mais 70 quilómetros, mas acabou obrigado a interromper a etapa de bicicleta, fazendo do território tailandês o ponto final dessa parte da aventura. Apesar disso, seguiu viagem de transportes públicos e visitou Laos e Vietname, optando por não ir a Macau porque queria chegar lá apenas a pedalar.

A filosofia do caracol
O mote da aventura foi o caracol, símbolo escolhido para representar uma viagem focada não apenas no destino, mas em desfrutar calmamente de cada momento. “Falhar, recuperar, resistir, confiar, esperar e viver, são verbos de ação que pus em prática“, explicou Alexandre, que resumiu a experiência: “Tudo isto não foi sobre esforço físico. Foi sobre amor. Aquele que acontece entre duas criaturas, que se encontram por uma vez, e se apaixonam.“
O objetivo inicial de alcançar a China ficou por cumprir, mas o propósito maior, garantiu, foi sempre outro: “desfrutar devagar, como um caracol”. A metáfora guiou a viagem e também o testemunho, marcado por humor, humildade e inspiração.

Solteiro e sem carro por opção própria, o engenheiro mantém o compromisso com a mobilidade sustentável e colabora com o projeto “Comboio de Bicicletas”, que promove deslocações semanais de bicicleta entre casa e escola para crianças.
Alexandre Pascoal regressou a 21 de dezembro de 2024 com um “superpoder“. “Um poder na perspectiva da possibilidade, do poder ir, do privilégio que isso representa, e do poder como competência, ter a destreza, a disciplina e a resiliência necessárias para poder viajar em ambientes e realidades tão diversas das que conheço. Com serenidade aprendi a aceitar aquilo que não posso mudar, coragem para mudar o que está ao meu alcance e sabedoria para distinguir ambas as situações. “Quando parti para 345 dias de viagem não imaginava passar a ter este super poder, que agora transporto comigo”, confessou o engenheiro, que teve como únicos companheiros permanentes Deus e a “Albarda“, nome carinhoso dado à sua bicicleta. Garante que, apesar de se sentir mais resistente às dificuldades da vida atual, “não sou um super-homem, apenas de uma série limitada”, brincou, assegurando que continua fiel a uma convicção inabalável: “a comida portuguesa é a melhor do mundo”.
O mapa completo do trajeto pode ser consultado em: https://345dias.travelmap.net/






