Translate

A paragem de autocarro é o melhor laboratório para estudar a falta de civismo de quem, por sinal, se acha muito civilizado. Há sempre um artista que, entre um bocejo e uma olhadela ao telemóvel, sente a urgência de libertar um escarro monumental, como se o asfalto fosse um escarrador público e gratuito. É um gesto natural, mecânico, feito com a mesma indiferença com que se coça a orelha.
A seguir, vem o cigarro. Fumado com aquela sofreguidão de quem vai para a guerra, termina invariavelmente esmagado no chão, somando-se à colecção de beatas e pastilhas que fazem daquele quadrado de calçada um cemitério de detritos humanos. Ficamos ali, a partilhar o ar com o fumo de terceira mão e a evitar olhar para baixo, para não termos de encarar a herança viscosa que o vizinho do lado acabou de depositar junto aos nossos sapatos…

Depois, temos os atletas da impaciência. Aquela gente que acredita, com uma fé inabalável, que o transporte público aparece mais depressa se caminhar quilómetros sem sair do mesmo sítio. É o clássico vaivém entre o limite do passeio e o poste do horário. Esticam o pescoço, olham para o fundo da rua com o desespero de quem procura um salvamento marítimo e bufam. Bufam muito, como se o oxigénio expelido com raiva servisse de combustível para o motor do veículo que tarda em aparecer.
É uma dança ridícula: caminham cinco passos para a direita, param, olham o relógio, caminham cinco passos para a esquerda. No fundo, é o triunfo da ansiedade sobre a lógica. Pensam que o movimento acelera o tempo, quando a única coisa que conseguem é desgastar a paciência de quem está ao lado e, com sorte, pisar o tal escarro que o primeiro artista ali deixou ficar.
Por: Miguel Correia
Os artigos de opinião publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores e não refletem, necessariamente, a posição editorial, institucional ou a orientação do Portal. O conteúdo publicado expressa apenas a visão pessoal de quem o escreve, sendo assegurada a liberdade de expressão no respeito pelos princípios legais, éticos e deontológicos em vigor.
