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No longínquo ano de 1965 o nosso pároco de então, Pe. Alcino Vieira dos Santos, e o nosso sacristão, Luís Barra, fundaram a Associação de Acólitos de Leça da Palmeira. Para a concretização dessa missão tiveram a colaboração preciosa da D. Arminda ou, como era carinhosamente apelidada, “Menina Arminda”.
Este impulso de recorrer à juventude para a missão de servir o Altar foi um ato novo e de coragem, que surge imbuído nas diretrizes imanadas pelo II Concílio do Vaticano sobre a reforma litúrgica que viria modificar as nossas celebrações, sobretudo a Eucaristia.
Acólito – origem
A palavra ‘acólito’ advém do grego e significa aquele que acompanha no caminho. No contexto litúrgico, podemos dizer que é aquele que, na celebração litúrgica, precede, vai ao lado ou segue outras pessoas, com o objetivo de as servir e ajudar.
Historicamente, a primeira referência que existe aos acólitos aparece numa Carta do Papa Cornélio a Fábio, Bispo de Antioquia, do ano de 251, que o primeiro informa o segundo da existência de 42 acólitos na Igreja de Roma. Esta carta relata os acontecimentos dum concílio dos Romanos, segundo o historiador Flávio Josefo (Cf. Antologia Litúrgica, pp. 371). De referir, em jeito de curiosidade, o nome dos primeiros acólitos nomeados nos documentos da Igreja antiga, todos elencados em cartas do séc. III: Narico, Favorino, Saturo e Feliciano (Cf. Antologia Litúrgica).

Podemos ainda no contexto histórico nomear o patrono dos acólitos: São Tarcísio. Este jovem de 12 anos deu a sua vida ao servir como acólito a Igreja de Roma por mandato do Papa Sisto II, que lhe deu a missão de levar até à prisão romana a comunhão aos cristãos perseguidos e presos pelas autoridades imperiais. No caminho foi abordado sobre o que escondia, este determinantemente não o revelou e por isso foi maltratado e apedrejado até à morte. Segundo a tradição, este antes de ser maltratado consumiu todas as partículas eucarísticas, não permitindo aos seus perseguidores a profanação da Eucaristia.
A essência de ser acólito e de preparar a mesa
Ser acólito é caminhar, acompanhar e, sobretudo, servir. Não é uma ação vazia de significado, que se faz sem implicação de nós mesmos. É um serviço de se dar, de cuidar e fazê-lo na nossa singularidade e fragilidade humana.
O acólito tem a missão de preparar a mesa. Não é uma mesa qualquer: é o Altar da ação de graças, do memorial. Esta ação de graças e memória não remetem para simples vocábulos de agradecimento e de recordação. Esta ação de graças eleva-nos, faz-nos sair de nós mesmos para nos abandonarmos ao Outro, de o contemplar, admirar, adorar, elogiar, exaltar. A memória, eucaristicamente falando, salienta o caráter objetivo, realista, ativo da recordação ou memória que, segundo a hermenêutica bíblica e hebraica, nunca era uma simples recordação psicológica ou subjetiva, mas uma atualização ou presença atualizadora dos factos passados ou distantes que se comemoram. Por palavras simples, o memorial traz ao presente o acontecimento salvífico passado, com as mesmas graças e bênçãos da primeira vez que aconteceu.

Aqui podemos apresentar, por palavras simples, o significado de liturgia dum dos grandes da reforma litúrgica do séc. XX, Odo Casel. Segundo Odo Casel, existe um acontecimento primordial de salvação que através do memorial, única e exclusivamente possível através da ação litúrgica, todo o povo de Deus tem acesso a esse acontecimento salvífico.
Assim, o acólito tem a missão de preparar essa mesa do banquete e da ação de graças que recorda memorialmente a doação total de Jesus Cristo, através da sua paixão, morte e ressurreição. O acólito tem uma missão especial, não só por servir e preparar a mesa sagrada, mas porque o faz para toda a comunidade.
É o serviço de cada ministro, chamado a ‘preparar’, a dispor o necessário para que o Senhor possa agir ‘através’ e ‘na’ celebração, como sugere o documento magno da reforma litúrgica emanado no II Concílio do Vaticano, a Sacrosanctum Concilium (SC, 102), ele (ministro/os), “recordando os mistérios da redenção, abra aos fiéis as riquezas das ações salvíficas e dos méritos do Senhor, tornando-as presentes em todos os tempos e permitindo aos fiéis entrar em contacto com elas e ficarem repletos da graça da salvação”.

Os acólitos são corresponsáveis, juntamente com o ministro ordenado, pela celebração salvífica sacramental. O facto de o ministro ordenado ser o ator principal, tal como Jesus, não significa que os acólitos, como os discípulos, não devam estar envolvidos. Pelo contrário, os acólitos não são chamados a ser ‘espetadores mudos’, mas a compartilhar com o sacerdote aquele ato, aquela oferta tão solene e definitiva.
Há uma missão específica para os que preparam a mesa: “Ide preparar-nos a Páscoa (Ceia) para que a comamos.” (Lc 22,8). “Eles partiram (…) e prepararam a Páscoa (Ceia)” (Lc 22,13). Jesus implica-nos na preparação. Somos parte importante na celebração da Eucaristia. No entanto, não nos implica apenas na preparação da mesa; Ele convida-nos para nos sentarmos à mesa: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco (…) (Lc 22, 15).
O convite de Jesus em Lc 22,8-15 revela duas dimensões inseparáveis: serviço e comunhão. A preparação da mesa não é um ato meramente funcional, mas uma expressão de corresponsabilidade na economia da salvação. Ao dizer «Ide preparar-nos a Páscoa», Cristo insere os discípulos no dinamismo da Aliança: eles não são espectadores, mas colaboradores ativos naquilo que será o memorial da sua entrega. A liturgia atual conserva esta lógica: a Eucaristia não é algo que “nos é dado” sem implicação; exige disposição interior e exterior, uma preparação que vai do altar ao coração.
Por outro lado, o desejo ardente de Jesus (“Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco”) sublinha que a meta da preparação é a comunhão. Não basta preparar; é necessário sentar-se à mesa, entrar na intimidade do Senhor. A Eucaristia é, portanto, dom e tarefa: dom porque é iniciativa de Cristo, tarefa porque requer a nossa participação ativa. Esta dupla dimensão recorda-nos que a liturgia não é um ritual isolado, mas um encontro transformador, onde o serviço prepara a comunhão e a comunhão dá sentido ao serviço.

Segundo, também, a Sacrosanctum Concilium, a ação litúrgica deve ter em conta as seguintes caraterísticas: brevidade, simplicidade e praticidade (SC, 34 e 35).
Atendendo as caraterísticas elencadas, o acólito tem na sua missão que zelar sobretudo por duas: simplicidade e praticidade. Obviamente que é necessário muita preparação, dedicação e maturidade para conseguir corresponder a estas exigências com alguma naturalidade. Daí que servir seja também um caminho de crescimento como cristão, como pessoa e naturalmente como acólito.
No entanto, o que quero refletir agora é sobre a grandiosidade da missão do acólito na ação litúrgica, sobretudo na Eucaristia. A beleza da liturgia está na forma simples com que ela decorre. Costumo dizer que o acólito tem de passar despercebido durante as celebrações. Se não repararam nos acólitos e a celebração decorreu naturalmente é sinal de que estes cumpriram a sua missão. O acólito é um servo ‘escondido’, ou seja, só deve agir e aparecer aquando da sua necessidade. Todo aquele acólito que tenta sobressair, dar nas vistas, ficar com as tarefas mais importantes, que se recusa a desempenhar funções supostamente menos relevantes não é acólito. Pode ser outra coisa, mas nunca acólito. “ (…) um servo não é maior que o seu Senhor (…)” (Jo 13, 16), ou seja, o acólito não é maior do que aquele que se dá, Jesus.
A sua ação deve ser simples, com movimentações calmas, pausadas e penas necessárias. Esta ação deve visar sobretudo a praticidade da ação litúrgica.

Nós acólitos, apesar da preocupação pela beleza da ação litúrgica juntamente com o presidente da mesma, somos uns privilegiados. Estamos mais perto da mesa da refeição santa, do altar do sacrifício, de Jesus, de Deus. Muitas vezes me vejo a refletir sobre este privilégio e sobre toda a nossa ação e movimentação na liturgia. O andar, o estar de pé, o ajoelhar… tudo concertado em prol da adoração a Deus.
Andar ereto significa ser homem, criado à imagem e semelhança de Deus, para cuidar e amar, tal como Deus faz. Estar de pé, sinal de respeito, de estar vigilante e ativo sempre pronto a recomeçar a caminhar e agir. O ajoelhar, além de ser sinónimo de adoração, é sinal de humildade, de nos sentirmos pequenos diante Daquele que nos ergueu. Um ajoelhar que nos faz inclinar a alma e o coração para Deus. Somos moldados pelo Corpo de Jesus, que nos configura a alma e nos transporta para uma vida transformada e visível na nossa ação corporal. Como é belo ser acólito.
Ser acólito é viver a eucaristia, é viver Cristo em todos os momentos da vida. A Eucaristia é a fonte de todas as graças, é alimento que fortalece a alma e nos conduz ao Pai. Ao viver a Eucaristia, o acólito vive o seu ministério de serviço com mais dignidade, dedicação, oração e amor e, assim, santifica-se e aproxima-se mais de Deus.

A família da AALP
A Associação de Acólitos de Leça da Palmeira ao longo da sua história tem sabido transmitir às crianças e jovens a beleza deste ministério. Não só vivência litúrgica dos sacramentos, mas também na missão de ser cristão, de viver uma vida integra e fraterna ao jeito de Jesus.
Recordo as palavras do Santo Papa João Paulo II os acólitos: “Reunidos à volta dos Apóstolos, vós sois agora o grupo dos discípulos do único Senhor, sois uma parte da Igreja Universal, uma nova geração de servidores da mensagem do Evangelho da Boa Nova. E também, sois os servidores do Altar de Cristo, que é o centro de toda a comunidade, tanto das celebrações em que se reúnem grandes multidões, como na mais pequena e humilde capela.”
Esta beleza da proximidade à mesa e ao banquete deve fomentar uma especial relação e intimidade com Deus, assim como um projeto de felicidade assente no serviço e generosidade aos irmãos.
Todos aqueles que passaram pela AALP e serviram o Altar e a comunidade são pessoas imbuídas neste espírito de missão. Na celebração do 25º aniversário da paroquialidade do Padre Fernando Cardoso de Lemos, dia 23 de dezembro de 2003, o Bispo do Porto D. Armindo Lopes Coelho proferiu estas palavras no decorrer da celebração: “A Associação de Acólitos é uma verdadeira escola de acólitos”. E de facto é: escola de serviço, escola de responsabilidade, escola da amizade, escola da fraternidade e, sobretudo, escola do amor e testemunho cristãos.
Termino com palavras dum dos nossos pais fundadores, o Pe. Alcino, ao Comércio de Leixões no ano de 1995: sobre os “nossos queridos acólitos que servem o Altar: devem saber a Cristo, na alegria, na transparência, no otimismo, na disponibilidade…”
Que todos nós saibamos continuar a honrar o compromisso de servir na missão que nos é confiada pela Igreja.
Plácido Santos

