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Escritor matosinhense traz ao Portal uma nova rubrica de opinião semanal, marcada pelo humor, ironia e olhar crítico sobre o quotidiano.
Miguel Correia é um nome que se destaca no panorama da crónica portuguesa, sobretudo para quem aprecia um olhar simultaneamente crítico, humorístico e profundamente atento ao quotidiano.
Natural de Matosinhos, onde nasceu em 1979, é maquinista do Metro do Porto — profissão que, aliada ao contacto direto com a realidade urbana, lhe proporciona uma perspetiva única sobre as dinâmicas da vida moderna. Essa vivência traduz-se numa escrita fluída, direta e marcada por uma ironia subtil, capaz de transformar situações banais em momentos de reflexão e humor.
Nas suas crónicas, Miguel Correia explora as idiossincrasias do “tuga” comum, abordando com mestria tanto as pequenas rotinas do dia-a-dia como questões sociais mais amplas. O resultado são textos que fazem sorrir, mas que também convidam à reflexão.
Com uma abordagem acessível e envolvente, o autor revela uma rara capacidade de encontrar o extraordinário no comum, oferecendo aos leitores uma leitura descontraída, mas nunca superficial.
Se aprecia uma escrita inteligente, com humor subtil e um olhar atento sobre a realidade, vale a pena descobrir a obra literária de Miguel Correia, nesta página.
Nesta primeira crónica, Miguel Correia leva-nos numa viagem pelas ruas de Matosinhos, onde entre contentores, trânsito e decisões questionáveis, se revela um retrato simultaneamente realista e provocador da vida na cidade.
Uma estreia que define o tom do que aí vem: textos que convidam à reflexão, à identificação… e, quem sabe, à mudança.
O Impacto da Primeira Impressão

Vamos saltar a parte das apresentações formais. Se chegaram a esta página, deste prestigiado Portal online, é porque estão familiarizados com o rigor jornalístico e — ao contrário do que acontece nos restantes meios de comunicação — confiam na informação prestada. Escusado será dizer que fui apanhado de surpresa pelo convite para escrever uma crónica semanal. Ora, sendo a minha escrita caracterizada pelo sarcasmo, pela ironia e por outros disparates do quotidiano, fiquei apreensivo.
Sei que só tenho uma oportunidade para causar boa impressão; sei também que, entretanto, o departamento jurídico já foi alertado para um eventual aumento de trabalho sob a forma de reclamações. Numa espécie de nota introdutória, recordo que, em 2013, percorri as ruas de Matosinhos para realizar o documentário “In Matosinhos” — um exercício de reavivar memórias do passado tendo em conta as escolhas do futuro.
Naquela altura, a grande preocupação resumia-se ao elevado número de contentores espalhados pelos cantos da cidade. Esses grandes rectângulos de metal, tal como ervas daninhas, multiplicavam-se em locais imaginários — alguns até no relvado do Estádio do Mar. A quantidade de verdete foi a única alteração ao longo dos anos, já que nunca se conseguiu dar resposta ao problema. Por esta altura, os cidadãos já se habituaram às cores garridas que obstruem a linha do horizonte e o mar, transformando a paisagem num armazém industrial a céu aberto…
Contudo, se a vista é pesada, o caminho para lá chegar é um martírio. Os cidadãos locais enfrentam agora o drama do congestionamento. As ruas estão de tal forma apinhadas que parece haver mais carros que pessoas, e todos parecem seguir o mesmíssimo itinerário.
É frequente observar o envelhecimento precoce de condutores enquanto esperam que a viatura da frente avance uns escassos cinco centímetros. Pior sorte têm os “heróis” que optam pelos transportes públicos. Numa decisão de génio — provavelmente para promover a comunhão directa com os elementos da natureza — decidiram que as paragens de autocarro eram um luxo desnecessário. Retiraram os abrigos e deixaram o utente entregue à sua sorte: agora espera-se ao relento, num teste de sobrevivência digno de um documentário da National Geographic.
É a democratização do banho público em dias de chuva e do escaldão gratuito no verão, tudo enquanto se aguarda por um autocarro que, ironicamente, também está algures imobilizado no trânsito, a duas ruas de distância. Consta que alguns motoristas já pediram baixa psicológica; afinal, se recebessem ao quilómetro, corriam o risco de ter a folha de vencimento em branco.
Esta guerrilha do pára-arranca promete fazer ainda mais estragos se adicionarmos à equação o aumento desenfreado dos combustíveis. No fundo, entre contentores que tapam o mar e filas que impedem o movimento, vir a Matosinhos tornou-se um exercício de paciência que nem o melhor peixe assado consegue, por vezes, compensar.
Por: Miguel Correia
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