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Diz-se que a memória, com a idade, se torna preguiçosa. Eu prefiro acreditar que ela se torna apenas cínica: sabe o que ignorar para nos poupar o fígado. No entanto, por estes dias — talvez contagiada pelo espírito das limpezas de Páscoa — o meu baú de recordações decidiu escancarar-se. De lá saiu o ’embrião’ da minha escrita, a primeira vez que a realidade portuguesa me deu um valente estalo e me obrigou a querer denunciar o marasmo. Recuemos mais de duas décadas. Estávamos no tempo em que o Escudo ainda mandava no bolso, a Expo 98 era a nossa ‘crista da onda’ e os fundos europeus alimentavam a ilusão de um futuro radioso. Foi nesse cenário que um familiar deu entrada nas urgências. Não me recordo da maleita, mas a imagem é bastante nítida: uma maca, um corredor frio e horas de esquecimento…
Na minha cabeça de adolescente, o título nasceu logo: ‘À espera que ninguém me atenda’. Na altura, sem redes sociais ou blogues para desabafar, a indignação ficou guardada e, num gesto impulsivo, quis colocar num texto a minha frustração, como se fosse a solução mágica para mudar os acontecimentos. Hoje, vivemos na era da ficção científica, todos online e agarrados a bugigangas electrónicas, mas o enredo hospitalar permanece o mesmo. Gostaria de dizer que este texto é uma peça de museu, mas a falta de organização e o laxismo parecem ter-se tornado instituições permanentes deste país. Se dúvidas houvesse, as mais de quinhentas crónicas que escrevi na última década são a prova de que, infelizmente, o material para criticar Portugal é um recurso inesgotável.
Por: Miguel Correia
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