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Olho para a plataforma e o que vejo é uma data de zombies agarrados ao ecrã, com o pescoço curvado como se estivessem a rezar ao deus WhatsApp.
A malta ficou chalupa de vez. Agora, falar olhos nos olhos é uma agressão; o pessoal melindra-se com tudo. Se dás os bons-dias, olham para ti como se fosses um extraterrestre ou um psicopata. Refugiam-se naqueles grupos de conversas de treta para dizerem o que não têm coragem de dizer na cara.
Como maquinista, sinto que levo uma carga de gente que já nem sabe o que é ser gente. É uma desumanização social que mete nojo: preferem o silêncio covarde do “visto” no telemóvel à honestidade de uma conversa a sério. Estamos a criar uma geração de ofendidinhos que não aguenta a fricção da vida real e que acha que o mundo é um feed de Instagram…
O pior é que esta doença não fica lá fora; entra-me pela cabine dentro. É cada vez mais difícil combater esta mania de que o silêncio digital é melhor que o convívio.
O pessoal está a desaprender a ser humano porque é mais fácil bloquear alguém no telemóvel do que resolver um mal-entendido à frente um do outro. Estamos a tornar-nos ilhas isoladas num oceano de gente, e eu aqui a conduzir este comboio de cromos que nem se olham.
É a ditadura do politicamente egoísta. Se isto continuar assim, qualquer dia o Metro nem precisa de avisos sonoros, porque já ninguém ouve nada que não venha de uns fones.
Tratem-se, pá! A vida não tem filtro e não dá para fazer “scroll” quando as coisas ficam feias.
Por: Miguel Correia
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