O Calvário Burocrático

Igreja na era digital
Partilhe:

Translate

Miguel Correia

Em tempos de Quaresma, esperava-se que a Igreja, num assomo de visibilidade, estivesse à distância de um clique ou, pelo menos, de um toque de sino. Puro engano. Tentar descobrir o trajecto da procissão da Via Sacra tornou-se uma penitência mais exigente do que qualquer jejum a pão e água.

Aparentemente, os “servos de Cristo” decidiram que, para encontrar o caminho do Calvário, o fiel moderno precisa primeiro de uma pós-graduação em serviços de inteligência.

Telefones que tocam para o vazio, portas de cartório fechadas com o selo do “volto já” e redes sociais que exibem fotos do Natal de 2022. É curioso: numa altura em que o impacto da fé deveria transbordar para as ruas, a instituição parece ter optado pelo regime de teletrabalho espiritual, mas sem o Wi-Fi ligado…

Quando finalmente se consegue um contacto, a vaga resposta é de uma imprecisão quase mística. Ficamos na dúvida se a procissão passa na rua principal ou se é apenas uma intenção metafísica guardada no peito do sacristão.

Numa era de GPS e partilha de localização em tempo real, a nossa Igreja insiste no culto do segredo.

No fundo, há uma ironia deliciosa nisto: enquanto o mundo grita por atenção, os responsáveis pela Via Sacra escolheram celebrar “dentro de portas”, escondidos da luz que deveriam propagar. Talvez seja este o verdadeiro milagre da modernidade eclesiástica: a capacidade de se tornarem invisíveis precisamente quando mais precisamos de saber onde puseram a cruz.

Uma casmurrice burocrática que revela, uma vez mais, que o caminho para o céu é estreito, mas o caminho para o cartório paroquial é um autêntico labirinto de mistério.

Por: Miguel Correia

Os artigos de opinião publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a posição editorial ou a orientação do Portal. O conteúdo expressa apenas a visão pessoal de quem o escreve, sendo assegurada a liberdade de expressão no respeito pelos princípios legais e éticos em vigor.



Partilhe: