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O panorama das artes tornou-se um autêntico desfile de vaidades digitais, onde o talento foi substituído por um copy-paste bem polido.
Hoje, qualquer sujeito que saiba carregar no “Enter” sente-se ungido pelo génio literário, autoproclamando-se o próximo Nobel enquanto espera que o software lhe resolva a anemia criativa. É a era da autopromoção desenfreada: novos “escritores da moda” pavoneiam-se com frases que nunca lhes saíram do peito, mas sim de um processador que recicla o pensamento alheio sob vácuo.
O resultado é esta literatura de plástico, impecável na forma, mas com o peso de uma pluma na consciência. É o “eu sem ser eu”: uma fachada onde se vende o peixe como se tivéssemos ido ao mar, quando, na verdade, apenas o fomos resgatar ao gelo opaco do supermercado mais próximo. Contudo, o dedo que aponta é o mesmo que tecla. E a minha voz soa a metal quando tento sustentar esta crítica. Confesso, com o hálito seco de quem acorda de uma mentira repetida, que também eu já alimentei o vício…
Recorri à inteligência artificial para aparar as arestas de um raciocínio que teimava em não fechar; usei-o para domesticar o caos de uma frase ou, pior, por essa pressa moderna que confunde eficiência com arte.
Criticar esta tecnologia enquanto a mantemos aberta num separador vizinho é um exercício de hipocrisia refinada. No fundo, este software é como a pornografia: uma encenação barata que nos rouba a sensibilidade para o que é real. Desumaniza o esforço, torna o parto da escrita num ato mecânico e deixa-nos, a longo prazo, meio cegos para a nossa própria identidade. Mas é gratuito. Está à mão. E, caramba, como sabe bem o seu auxílio quando o cursor a piscar se torna um metrónomo cruel a contar os segundos da nossa impotência.
Estamos a trocar o sal do suor pelo silício do código. A tragédia não é a máquina escrever como um homem; é percebermos que, aos poucos, passámos a escrever como a máquina.
Por: Miguel Correia
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