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Vivemos na era do desmame cognitivo forçado, onde ler mais do que três frases seguidas se tornou um desporto de alta competição para o qual a maioria não tem pulmão. É o triunfo da regra mesquinha sobre o intelecto: se não escreveres em blocos mastigadinhos como comida de bebé, se não pendurares uma imagem colorida para atrair o olhar errante do utilizador, ou se ousares partilhar um link que exija a heresia de sair da plataforma, o algoritmo — esse novo deus de silício com o discernimento de uma amiba — condena-te ao ostracismo digital. Estamos a construir uma sociedade de cidadãos-peixinhos-dourados, confinados a aquários de vidro chamados smartphones, onde a liberdade de escolha foi trocada pelo conforto anestesiante de vídeos de quinze segundos. Nestes curtos espasmos de luz e som, a estupidez é elevada a património imaterial da humanidade, celebrando-se o vazio com uma coreografia idiota ou uma legenda de três palavras, porque, aparentemente, o esforço de processar uma ideia complexa causa alergia cutânea à geração do scroll infinito…
A ironia atinge níveis estratosféricos quando percebemos que estas “indicações de leitura” são para benefício do próprio leitor, mas tratamo-lo como uma criança birrenta que só come a sopa se houver um aviãozinho de plástico a fazer barulho. Perdemos a capacidade de habitar o silêncio de um texto, a profundidade de um argumento ou a pausa de uma vírgula bem colocada. Subjugados por regras de engajamento que castram a escrita e premiam o espalhafato, estamos a criar uma massa crítica que tem a espessura de uma folha de papel molhada. É o admirável mundo novo da ignorância voluntária, onde a liberdade de expressão morre não por decreto, mas por preguiça crónica. Se o pensamento não couber num cartão-de-visita ou não for servido com um filtro de beleza, simplesmente não existe. E assim, de quinze em quinze segundos, vamos enterrando a inteligência sob uma montanha de conteúdos descartáveis, enquanto o algoritmo sorri, satisfeito por nos ver pastar calmamente no prado da imbecilidade colectiva.
Por: Miguel Correia
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