O que ficou por fazer

O que ficou por fazer - Artigo de Opinião - Miguel Correia
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Miguel Correia

A montanha-russa de emoções da nossa selecção nacional foi abruptamente desligada com a eliminação da taça do mundo, devolvendo o país ao eterno fado do conformismo. Passámos, em menos de noventa minutos, de bestiais a bestas, num folclore colectivo onde uma nação inteira se deixa levar em ombros por um punhado de atletas — a maioria a facturar lá fora — que carregam o fardo da nossa crónica falta de unhas para grandes palcos. Como a história teima em rezar, há sempre um Adamastor qualquer a travar-nos o caminho, quer nos chamemos Magriços, Infantes ou Tugas. A panóplia de alcunhas muda, mas o resultado final é rigorosamente o mesmo. Desta vez, a primeira grande asneira assentou numa comunicação social reverente, que insiste em prestar uma vassalagem patética a um capitão mais preocupado em esfregar o currículo na cara dos adeptos do que em olhar para a data de validade no seu cartão de cidadão. O ego e a obsessão pessoal deste herói em declínio superaram a vontade colectiva, abrindo caminho para teorias conspirativas de balneário dignas de uma novela da noite. Já corre à boca pequena que os restantes jogadores, fartos do pedestal, alinharam num pacto secreto para lhe cortar o oxigénio do jogo, recusando passar-lhe a bola. Um enredo delicioso que alimentará o choradinho das tertúlias televisivas e os debates de café nos próximos meses…

O entusiasmo patriótico e de plástico deu lugar à ressaca da realidade, aquela mesma sensação de choque que sinto quando passo por uma viatura topo de gama na rua: um vislumbre momentâneo de euforia e sonho, seguido pelo murro no estômago da nossa tacanha rotina. O que ficou por fazer vai continuar por fazer, porque o futebol, no fundo, é apenas o espelho mais fiel da mentalidade organizativa da nossa sociedade. À semelhança do que acontece no tecido empresarial português, o canudo e o estatuto de vão-de-escada estarão sempre dez passos à frente do mérito real e da competência. Preferimos a ilusão do nome à eficácia do trabalho, arrastando o país para uma letargia onde o talento jovem e fresco é obrigado a mofar no banco enquanto as vacas sagradas pastam a sua intocável reputação. Enterrada a esperança e guardadas as bandeiras nas gavetas do esquecimento, resta-nos lamber as feridas e regressar ao habitual fado do desgraçadinho, aguardando que o próximo torneio nos devolva o circo, já que o dinheiro escasseia.

Por: Miguel Correia

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