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Se o supermercado é o corredor da sobrevivência gástrica, a farmácia é o balcão onde o náufrago tenta remendar o casco para não ir ao fundo antes do tempo. Entrar ali, depois de meses a fio a vegetar numa lista de espera do SNS, é o culminar de uma ironia cruel: o Estado finalmente reconhece-nos a doença, mas o mercado cobra-nos o fôlego.
A farmácia tornou-se o tribunal clínico da classe média, onde o doente, receita na mão e humilhação no rosto, é forçado a uma gestão de danos biológica. Escolher entre o comprimido para o colesterol ou o xarope para a tosse do miúdo não é uma decisão médica, é uma roleta russa financeira.
Há uma tristeza profunda no olhar de quem pergunta “qual é o mais barato?”, sabendo que a saúde em Portugal se tornou um produto com marca de luxo e que o alívio da dor é, muitas vezes, um crédito que se arrasta até à próxima reforma…
Neste santuário do químico, a trafulhice ganha contornos de sofisticação laboratorial. Assistimos ao teatro das embalagens que mudam de face para contornar genéricos e à engenharia do “marketing da maleita”, onde a solução para prolongar a vida parece desenhada para encurtar a poupança.
O farmacêutico, por vezes transformado num cobrador de impostos sobre a biologia, observa a ginástica do utente que tenta negociar a sua própria longevidade em prestações.
É o comércio da esperança em miligramas, onde se compra o direito de continuar a flutuar nesta existência precária. No fundo, estes medicamentos não servem para curar a raiz do mal, mas sim para anestesiar a consciência e prolongar a agonia de quem vive num país que lhe oferece a receita, mas lhe rouba o frasco.
A farmácia é, assim, a última paragem desta “Trilogia do Purgatório”, onde o português paga caro apenas para manter o privilégio de estar vivo e, infelizmente, lúcido o suficiente para sentir a injustiça.
Por: Miguel Correia
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