Trilogia do Purgatório: Sociedade

Convívio Social
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Miguel Correia

Para grande parte dos resistentes deste pequeno rectângulo, o lazer deixou de ser um direito para se tornar uma encenação de resistência.

Em Portugal, o convívio social transformou-se numa espécie de “teatralidade da migalha”, onde a esplanada é o palco de uma resistência silenciosa: quatro adultos imobilizados em torno de um único café, partilhando o aroma e o açúcar como se fosse uma herança de família.

É a sobrevivência do estatuto através da ocupação do espaço público. O náufrago Tuga, impedido de aceder ao banquete, especializou-se na arte de “estar”, sem necessariamente “consumir”.

Ir ao cinema ou sentar-se num restaurante tornou-se um evento de planeamento logístico comparável a uma cimeira do G7, onde o custo de uma refeição fora de portas equivale ao orçamento semanal de sobrevivência. Comer fora já não é um prazer; é um desafio aritmético onde se avalia o peso da conta face ao vazio que deixará na conta da electricidade…

Para mascarar este naufrágio social, surge a miragem do crédito para a felicidade instantânea. O sistema, num exercício de cinismo absoluto, oferece empréstimos para férias em doze meses, permitindo que a família exiba um bronzeado de luxo em agosto enquanto paga o sol a preço de ouro até ao inverno seguinte. É o financiamento do sonho para esquecer o pesadelo.

No restaurante, a trafulhice comercial responde com o “couvert” que aparece sem convite e pratos cujos preços sobem na mesma proporção em que as doses encolhem, numa “nouvelle cuisine” forçada pela inflação. O convívio, que deveria ser o cimento da sanidade, é agora um campo minado de dívidas e aparências, onde se troca a paz de espírito por uma fotografia de um jantar que ainda não foi pago.

Vivemos na era do luxo a prestações e do lazer racionado, onde a alegria é um bem de consumo financiado e a amizade se mede pela paciência de quem nos deixa ocupar a mesa sem consumir mais do que a vista.

Por: Miguel Correia


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